
Embu é Arte
História da cidade

Embu das Artes é mais do que uma cidade: é um ateliê a céu aberto na região metropolitana de São Paulo. Localizada a pouco mais de 30 km da capital paulista, ela carrega nas ruas de pedra e nas cores de suas feiras um legado que mistura fé, arte e resistência. O local foi fundado em 1554, graças aos jesuítas que pretendiam catequizar os indígenas que viviam ali. Aos poucos, a região foi se desenvolvendo, com a criação de igrejas e museus, e se tornou um lugar cheio de simbolismos.
O isolamento geográfico a manteve pequena por séculos, mas também preservou algo essencial: o tempo. E foi justamente esse tempo mais lento que, no século XX, atraiu artistas em busca de liberdade criativa. Nos anos 1960, os artistas Cássio M’Boy e Solano Trindade transformaram o lugar em um centro pulsante de cultura popular. Embu se faz tão presente no cenário artístico paulista que, em 2011, após um plebiscito, a cidade passou oficialmente a se chamar Embu das Artes. Outra conquista importante foi a consagração da cidade como Patrimônio Cultural Imaterial de São Paulo em 2021, trazendo a certeza de ser valorizado por quem aprecia a arte e a beleza.

A feira de artesanato
O lugar com mais visitantes de Embu das Artes é a famosa feira de artesanato, localizada no centro histórico, e que acontece todos os finais de semana. Ela foi criada nos anos 1960 pelo artista Mestre Assis, com a ajuda de outros colegas de profissão. Graças aos hippies e artesãos que já viviam na região, Assis viu em Embu o potencial para a cidade se tornar um polo cultural e artístico. Hoje em dia, mais de 50 anos depois, a feira continua a todo vapor, com os mais diversos tipos de artesanatos, feitos para todos os gostos.
Além disso, a feira conta com quiosques de plantas e flores, o que deixa o lugar com um toque de natureza. Quem passa pelos ateliês e artistas é acompanhado por diferentes sons, desde músicas típicas bolivianas até o tocar de um berimbau. Um patrimônio tão plural que até já atraiu artistas internacionais, como Mick Jagger, do The Rolling Stones, que ficou encantado com a cidade em uma visita feita no ano de 1995. Uma pesquisa feita pela prefeitura mostra que, atualmente, a feira abriga de 500 a 700 expositores e, mesmo quando a pandemia veio e trouxe com ela prejuízos irreparáveis, a feira de artesanato conseguiu se reerguer, sendo a responsável por movimentar a economia da cidade até hoje.
Centro de Embu das Artes (Fotos autorais)

Artistas que fazem parte de Embu das Artes
Curiosos e admiradores de arte que visitam Embu encontram uma feira que vibra em cores, sons e sotaques diferentes. Cada barraca carrega não só objetos, mas vidas inteiras tecidas em criatividade.
A caricatura, a cerâmica, o tricô, a escultura em madeira, a pintura, tudo se mistura em um mosaico de estilos e gerações. Ali, viver da arte é mais do que um ofício; é uma forma de existir.
“Eu trabalho aqui há 20 anos com caricatura, retrato. É uma arte que eu gosto muito de fazer. Todo final de semana eu estou aqui, sempre nesse ponto, desenhando os turistas”, conta Florisvaldo Macena, um dos rostos mais conhecidos da feira. Desde criança, ele sonhava em desenhar ao ar livre, cercado de gente e curiosidade. “Sempre foi o meu sonho desenhar aqui ao vivo. Eu admirava os artistas e pensava: um dia eu vou desenhar também.”

Florisvaldo Macena (Foto por Stella Urze)
Florisvaldo representa uma geração que cresceu acompanhando a consolidação de Embu como destino turístico e cultural. Ao lado dele, artistas de diferentes partes do Brasil e do mundo encontram na cidade um espaço de pertencimento. É o caso de Adolph Guerreiro, haitiano que chegou no Brasil há 12 anos e fez das ruas do centro histórico sua galeria permanente. “Vim do meu país pra cá em 2013. Até hoje estou aqui. Meutrabalho é dom. Todo mundo tem um dom. Meu dom é ser artista plástico.”
Ele fala com brilho nos olhos sobre suas inspirações: “Quando eu tinha 10, 12, 15 anos, sempre que eu dormia, sonhava com alguém me ensinando. Quando eu acordava, colocava no papel o que via. Até hoje, muitas ideias vêm assim, nos sonhos.”
Entre os artistas locais, há também quem nasceu e cresceu nesse ambiente criativo. Marcos Lemes, morador e produtor cultural, fala com orgulho da pluralidade da cidade: “Embu, por ser um local que tem essa ampla fomentação da cultura, tem artes plásticas, cênicas, escultura, dança… Tudo o que você buscar de cultura, tem um pouquinho aqui.”
Como um morador apaixonado, Marcos se preocupa com o destino da cidade. “Boa parte da população periférica de Embu não sabe o que acontece aqui no centro. Muitos nem sabem que existe a Feira de Artes.” Segundo ele, a cidade vive um momento de transição. “A feira já foi muito mais grandiosa. Os grandes artistas trouxeram essa aura artística para Embu, mas muitos não conseguiram formar uma nova geração. É um desafio manter viva essa chama.”
Mesmo com as dificuldades intrínsecas no caminho de um artista, principalmente para aqueles que vivem no Brasil, país que ainda deixa a desejar na valorização cultural, o que se sente por trás de cada fala é o orgulho de viver da arte. “A parte principal aqui é que as pessoas vêm atrás do artesanato, e para um artista não tem coisa melhor.” diz Florisvaldo. O haitiano Adolph, que encontrou em Embu uma oportunidade de viver da sua maior paixão, complementa com uma frase que perpassa todos que trabalham com arte:
- Adolph Guerrode
"
Arte é amor. Se você não tem amor, não dá pra fazer arte.
Tudo que você faz tem que ter paciência e amor
"
Essa ligação entre o fazer artístico e o afeto é o que move Embu das Artes. Suas ruas são palco de trocas culturais, de histórias pessoais entrelaçadas e de resistências cotidianas. A arte é o sustento e também o sentido de estar ali. É trabalho, mas também é vida, é o que transforma o comum em extraordinário.
Ao caminhar pelas vielas do centro histórico, o visitante percebe que cada pincelada, cada escultura, cada fio trançado é também um gesto de memória. A cidade respira o legado de seus fundadores, dos artistas que vieram antes, e daqueles que ainda hoje mantêm viva a tradição.
Reportagem multimídia produzida para a disciplina Jornalismo Digital, do curso de Jornalismo da FAPCOM (Faculdade Paulus de Comunicação), no 2º semestre de 2025. Orientação: Profª Patrícia Basilio






